Tapas, broncas e castigos são métodos durante muito tempo utilizados pelos adultos para dar limites às crianças.

Culturalmente ainda acredita-se que estas são as saídas mais eficientes para solucionar questões da educação cotidiana dos pequenos, a maior parte das vezes com o intuito de prevenir que a criança se torne um adulto mal-caráter e que desrespeite aos pais. Aliás, muitas pessoas que se consideram boas, honestas e bem sucedidas atribuem sua retidão ao severo regime de surras, gritos e privações que receberam de seus pais e educadores durante a infância. Assim, praticam com seus filhos e incentivam amigos e familiares a fazerem o mesmo. No entanto, tapas, broncas e castigos não são realmente adequados para o tratamento das crianças e podem provocar sequelas e consequências graves a curto, médio e principalmente à longo prazo, prejudicando toda a vida subsequente da criança.

Porque Tapas, Broncas e Castigos não funcionam?

Para compreender isso, vamos mergulhar um pouco mais profundamente na estrutura psicofisiológica humana, compreendendo seu processo de desenvolvimento e os mecanismos biológicos envolvidos com a aprendizagem. A pele é o primeiro órgão a surgir. É o maior órgão do corpo, à partir do  qual são formados todos os outros órgãos. O primeiro sistema a se desenvolver a partir da pele é o sistema nervoso: o cérebro a medula e toda a rede de neurônios que vai estabelecer a relação entre o cérebro e todos os outros sistemas. A pele, por todo o corpo, por todos os órgãos é extremamente sensível. Da pele surge o primeiro sentido: o tato. Deste sentido se desenvolvem  todos os outros: a audição, a visão, o paladar, o olfato e também um sentido do qual ouvimos falar muito pouco: a propriocepção, que é  sensação de “si mesmo”, que é um sentimento possível a partir da experiência de todos os outros sentidos unidos. O sucesso do desenvolvimento integral da criança está relacionado intimamente com a qualidade do aprimoramento da sua relação com o mundo por meio dos sentidos. Sua experiência sensorial vai criar as redes de neurônios que constituirão a sua memória de relação com o mundo e assim esta relação da criança com o mundo vai se construindo, se fortalecendo e se aprofundando por meio do corpo. Assim vão se formando seus vínculos de afetividade e também seu senso de auto-proteção, seus vínculos de confiança e também as resistências que nascem à partir do medo. Todo o aprendizado da criança nasce da relação de causa e efeito proporcionada por sua experiência dos sentidos e seu “discernimento” num primeiro momento é construído à partir da diferenciação entre prazer e dor, entre bem-estar e mal-estar. Por um instinto de sobrevivência a criança busca sempre voltar para o bem-estar e o prazer, como um sinal de que sua vida não está sofrendo ameaças. Portanto, tapas, broncas e castigos não tem como servir como medida educacional para a criança e sim como um sinal de risco de vida em sua relação com os adultos. Gerando em seu sistema psico-físico uma complexa cadeia de reações de auto-proteção em relação aos adultos, dificultando o estreitamento dos laços de intimidade entre adulto e criança que são a única possibilidade de uma educação verdadeira e efetiva. Tapas, broncas e castigos são medidas que prejudicam o sistema psicofisiológico da criança, seus órgãos dos sentidos e portanto, sua sensação de si mesmo, causando graves danos em sua jornada de desenvolvimento e aprendizagem do mundo.

Tapa-por-que-não-funciona

Tapa, por que não funciona?

Vamos trabalhar usando um exemplo para facilitar a compreensão. Vou usar o exemplo de um acidente, geralmente interpretado pelos adultos como uma teimosia ou como uma peraltice: a criança que coloca a mão em lugares perigosos. Quando uma criança encosta o dedo em uma panela quente imediatamente seu sistema associa a experiência: a panela, a sensação dolorida no dedo e a necessidade de esquivar-se da panela. É imediato. Digamos que neste momento em que a criança se queima, para dar um limite na criança, sua mãe lhe dê um tapa. A criança queimou o dedo, seu sistema está integrando a experiência que virá a se tornar uma memória útil para  seu  aprendizado: o calor excessivo da panela em sua pele coloca em risco sua integridade física – é isso que o corpo está integrando. O tapa virá como uma interferência neste processo de integração e não tem o poder de dar um limite na relação entre a criança e a panela e sim de abrir uma nova demanda de aprendizagem entre a criança e sua mãe. Essa nova demanda de aprendizagem entre a criança e a mãe, no entanto, ficará incompreensível para o corpo da criança, que não consegue interpretar que: quando queimo o dedo na panela, recebo um tapa de minha mãe para me proteger. O tapa que é uma reação da mãe, para o corpo da criança é uma dor sem causa. A mãe pode até explicar posteriormente, porém, de uma forma prática, o corpo apenas compreende: quando minha mãe faz isso eu sinto dor. Como não há uma relação clara de causa, a impressão que o sistema nervoso da criança cria é de insegurança e auto-proteção em relação à mãe.

Bronca, por que não funciona?

Vamos usar o mesmo exemplo da panela quente. Digamos que a criança queimou o dedo, seu sistema está integrando esta experiência e a mãe comece a lhe dar um sermão. A criança naquele momento está com seu sistema em choque, empenhado em integrar aquela experiência e essa integração não passa ainda por uma via racional. Uma bronca requer atenção e um processo intelectual que não estão disponíveis na criança naquele momento. A bronca interferirá no processo de aprendizagem natural da criança e também ocasionará uma nova demanda na relação entre a criança e sua mãe. Uma demanda ainda mais exigente para a criança, que lhe solicita faculdades intelectuais que ela ainda não está em condições de oferecer. Quando a bronca acontece por meio de gritos e expressões físicas fortes e ameaçadoras por parte do adulto, além de prejudicar a sensibilidade auditiva e física da criança, as imagens impactantes podem causar uma reação de defesa tão forte no sistema nervoso da criança que ela pode até começar a chorar, a gritar e atacar o adulto para se proteger. À longo prazo, as marcas emocionais que ficam registradas no sistema da criança pode provocar desordens diversas em seu organismo e em seu equilíbrio psíquico.

Castigo-por-que-não-funciona

Castigo por que não funciona?

Vamos supor que ao invés de dar um tapa ou uma bronca, a mãe escolha educar a criança usando o castigo como estratégia. O castigo tem como premissa o respeito a determinadas regras ou combinados sob pena de punição, que pode ser de diversos tipos: minutos de solidão, ficar sem televisão ou sem sobremesa, distância dos amigos, privação de brinquedos e passeios etc. A maior parte das vezes o castigo é dado por meio da privação de algo que a criança gosta muito. A idéia de castigo, no entanto, sempre implica no “erro” por parte da criança e nunca condiz com a necessidade real de aprendizado apresentada por essa falta. Por exemplo: se a criança grita com os pais, fica sem sobremesa. Se não guarda os brinquedos, fica sem sobremesa. Se não almoça, fica sem sobremesa. É impossível criar um caminho cognitivo que relacione causa e efeito que proporcione uma mudança de atitude por parte da criança. A criança necessita compreender que suas atitudes tem consequências no mundo e que cada uma de suas atitudes tem consequências específicas. Se ela não guarda os brinquedos, fica com o quarto bagunçado, essa é a consequência. Se a criança compreende que a consequência de não guardar os brinquedos é que os adultos ficam bravos e a deixam sem sobremesa ela terá um problema muito maior para resolver do que o problema real e um problema que nunca vai acabar: ela não arruma os brinquedos, os adultos ficam bravos e ela fica sem sobremesa, ela sofre por isso… Mas a consequência real: o quarto fica bagunçado, já se perdeu, alguém arrumou o quarto, e este é um problema cognitivamente sem solução, assim como na dinâmica familiar também se torna sem solução. Amanhã acontecerá tudo de novo: a criança não vai arrumar o quarto, um adulto se mostrará insatisfeito por conta disso, vai usar o castigo como punição novamente e alguém vai arrumar o quarto. A criança segue sofrendo com um problema novo: como não deixar os adultos insatisfeitos a ponto de lhe tirarem a sobremesa.

5 dicas para educar sem usar tapas, broncas e castigos

A criança está vivendo um processo de auto-conhecimento constante. Seu corpo é seu instrumento para conhecer a vida. Ela necessita de atenção, compreensão e companheirismo para vivenciar este processo, para que seu aprendizado seja fundamentado na honestidade e preservando sua dignidade.

  • Certifique-se de que a criança está saudável.

Seu filho(a) pode estar com alguma dificuldade de saúde. As “peraltices” e “teimosias” podem estar acontecendo por alguma dificuldade tanto fisiológica quanto psicológica. Ele pode estar tentando expressar isso de alguma maneira. Por exemplo: uma criança que sempre derruba coisas pode estar vivendo algum tipo de dificuldade motora. Uma criança que não quer comer pode estar vivendo algum tipo de transtorno gástrico, dores na arcada dentária ou gengivas. Uma criança que apresenta sintomas de apatia e desânimo pode estar carente de vitaminas.

  • Tenha um tempo diário para cuidar da criança de uma forma mais íntima.

Reserve um tempo para estar com a criança. Preparar a criança para dormir é um bom momento para estreitar os vínculos afetivos com a criança. Escovar os dentes, fazer uma boa massagem e aproveitar para dar uma olhada em cada parte do corpo da criança: como estão seus dentes, suas gengivas, examinar sua pele, sua respiração, verificar se existem hematomas e machucados, alguma tensão específica, verificar se as unhas estão necessitando de cuidados, como estão seus cabelos. Aproveitar para conversar com a criança a respeito de como foi seu dia, sua alimentação, as brincadeiras, como estava seu cocô, xixi, se teve momentos de descanso, com quem esteve ao longo do dia, se teve dificuldades, o que foi e o que não foi bom. Enfim. Este momento diário vai auxiliar ao adulto conhecer: o ritmo do corpo da criança, alterações de saúde, humor, avaliar as necessidades e prioridades para a criança para o dia seguinte. Por exemplo: se a criança necessita beber mais água, brincar ao ar livre e quais os tipos de brinquedo que mais se adaptam ao seu temperamento e necessidades físicas ou se necessita de ajuda para solucionar algum conflito emocional.

  • Não julgue. Pergunte.

Geralmente quando a criança faz algo que consideramos inadequado o primeiro impulso é corrigir. Inclusive acreditamos erroneamente que o papel do cuidador é de corrigir a criança. O papel do cuidador é orientar. Uma orientação verdadeira só pode nascer à partir de uma demanda clara. Qual é a necessidade da criança? Como ajudá-la a superar uma dificuldade? Por exemplo: a criança não quer guardar os brinquedos. Porque ela não quer guardar? Como podemos ajudá-la a solucionar isso? Está cansada? Precisa de ajuda? Não sabe como fazer isso? Poderia descansar e fazer isso depois?

  • Mantenha o foco no aspecto que necessita de solução. Evite punições, chantagens e barganhas.

Tente sempre avaliar qual é o assunto a ser resolvido e dar foco a ele. Por exemplo: a criança necessita tomar banho e não quer. Qual a consequência disso? A consequência precisa ficar clara para a criança. Ficar sem TV,  apanhar ou deixar a mamãe e o papai tristes definitivamente não são a consequência. Como você pode ajudar a criança a compreender quais as consequências em ficar sem tomar banho? Muitas vezes com uma necessidade imediatista de resolução, punimos ou oferecemos recompensas às crianças. Isso não ajuda a criança a mudar verdadeiramente de atitude, o sistema de punição e recompensa funciona como um paliativo que resolve naquele momento o problema, porém gera consequências maiores a longo prazo. A criança para verdadeiramente aprender e crescer precisa lidar com a realidade. Ela precisa ter clareza de causa e consequência.

mimos-e-carinhos

  • Reserve presentes e carinhos para os momentos de presentes e carinhos. Premiações confundem a criança.

Os presentes, os mimos e os carinhos necessitam de momentos adequados na vida da criança. Dar presentes para que as crianças atendam às vontades dos adultos confunde as crianças. Ela pode passar a acreditar que ela é amada apenas quando faz o que o outro quer que ela faça e perder totalmente a conexão com suas necessidades reais e espontaneidade em dar e receber amor e afeto. Dê carinho espontaneamente. Dê presentes quando é necessário demonstrar à criança que você está presente na vida dela, presentes que realmente façam a diferença e potencializem sua capacidade de aprender, crescer e se aperfeiçoar no que ela gosta de fazer.

 

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